terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Chefe do ACNUR finaliza visita a Sudão com proposta de solução duradoura para refugiados

O Alto Comissário da ONU para Refugiados, António Guterres, encerrou sua visita ao Sudão esta semana felicitando os esforços de busca de soluções duradouras para milhares de refugiados em situação prolongada no leste do Sudão. Além disso mencionou sua preocupação com o tráfico de pessoas vulneráveis na região, incluindo solicitantes de refúgio.

“Nosso programa para refugiados no Sudão é um dos mais antigos da África, com 45 anos. Desde então, o governo tem abrigado generosamente os refugiados de vários países”, disse Guterres a jornalistas em Kartoum na quinta-feira. Reconhecendo a tensão criada na população sudanesa por gerações de hospitalidade, anunciou os planos de lançar uma iniciativa “com o objetivo de ajudar os refugiados em situação prolongada a se tornarem mais autossuficientes por meio de projetos de subsistência, além de apoiar a comunidade local com projetos de desenvolvimento”.

Esta iniciativa é apoiada pelo governo e será implementada conjuntamente pelo ACNUR, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Banco Mundial. Inicialmente, o projeto será implementado em alguns campos pilotos no leste do país.

Antes da conferência de imprensa, o Alto Comissário viajou a Kassala, no leste do Sudão, para se reunir com o maior agrupamento de refugiados do país, cerca de 86 mil. Muitos fugiram dos conflitos nos últimos cinquenta anos entre Eritreia e Etiópia, mas a maioria nasceu nos campos no Sudão e compartilha etnicidade, idioma e religião da comunidade de acolhida.

No campo de Shagarab, Guterres se reuniu com mulheres que tinham sido beneficiadas por um programa de microcrédito do ACNUR. Entre elas estava Asha Adam, 28, que foi capacitada para fazer artesanatos e administrar um pequeno negócio. Com um empréstimo inicial de 150 libras sudanesas (cerca de US$ 56), ela inaugurou um armarinho na casa dos pais para vender biscoitos, molho de tomate e sabonetes comprados no mercado local.

“Está indo bem”, disse a refugida eritreia que nasceu e cresceu no campo. “Espero poder expandir meu negócio para uma loja e vender mais produtos de uso diário, como café e açúcar. Meus pais são idosos e meus dois irmãos trabalham como diaristas no mercado, então isso nos ajudará a aumentar a renda familiar”.

Durante sua visita a Shagarab, o Alto Comissário também se reuniu com os recém-chegados. Todo mês, cerca de dois mil solicitantes de refúgio chegam ao campo, sendo a maioria jovens eritreus. Alguns vêm para escapar do serviço militar, outros somente buscam uma vida melhor em outro lugar. A maioria deixa o campo após dois meses de sua chegada, utilizando redes de tráfico humano para contornar as restrições de movimento e continuar sua jornada até Cartum, Oriente Médio ou Europa.

Younas, 24, fugiu da Eritreia após anos de baixos salários e condições difíceis no serviço militar. Durante seus quatro meses no campo de Shagarab, tentou por duas vezes ir para Cartum, cidade que julga ser mais segura para um desertor. Foi preso duas vezes e enviado de volta para o campo. Mas está determinado: “Enquanto estiver vivo, continuarei tentando encontrar um local mais seguro para ir”.

Falando a um grupo de recém-chegados, Guterres disse, “é doloroso ver tantos jovens serem vítimas de tráfico e sequestros. Alguns são até mortos. Estamos preparados para apoiar o governo a adotar medidas energéticas contra os traficantes e a proteger as vítimas. Ele acrescentou, “Este não é um problema somente do Sudão, é um problema global que requer a resposta de muitos países da região”.

Durante sua visita, Guterres falou sobre outro difícil tema – o futuro de aproximadamente 700 mil sulistas vivendo no Sudão após a independência do Sudão do Sul em julho do ano passado. Cerca de 100 mil deles foram registrados até agora para retornar ao Sudão do Sul, mas estão presos em Cartum e outras áreas devido à falta de recursos, transporte e segurança.

O Alto Comissário escutou os problemas dos refugiados quando visitou o ponto de partida em Mayo Mandella, no sudeste de Cartum, na quarta-feira. Ali cerca de 245 famílias sulistas vivem em tendas, algumas há mais de um ano.

“Se você quer nos ajudar, por favor nos ajude a encontrar rapidamente um transporte”, disse uma mulher em Mayo Mandella. Não há muitos trens ou embarcações que vão para o sul, e algumas rodovias são inseguras, especialmente nas áreas afetadas pelo conflito, como Kordofão do Sul.

Guterres, que visitou o Sudão do Sul no começo desta semana, observou, “Ambos governos concordaram com um plano de ação bilateral, o qual, esperamos, será estabelecido em breve para permitir um retorno mais efetivo dessas pessoas ao sul. Isso envolverá transporte aéreo para as pessoas mais vulneráveis, mas a abertura de vias seguras para o transporte terrestre dos comboios será crucial”.