sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Grandes concessões agrícolas: Moçambique pode tornar-se num Brasil de milhões de "sem terra"

A União Nacional dos Camponeses de Moçambique (UNAC) alertou hoje (sexta-feira) em Maputo que o país pode tornar-se num "Brasil" de milhões de “sem terra”, caso o Governo aposte na política de grandes concessões agrícolas sem seguir a lei. 

O debate sobre o risco de expropriações em Moçambique foi recentemente suscitado por informações de que o Governo negociou com investidores brasileiros a concessão de seis milhões de hectares para o aproveitamento agrícola no norte do país. 

Queixas de que as multinacionais de exploração de carvão em Tete, centro do país, estão a retirar as populações para zonas não agricultáveis também alimentam receios de tensões sociais devido ao acesso à terra. 

Em declarações à Lusa em Maputo, o secretário -executivo da União Nacional dos Camponeses de Moçambique (UNAC), que congrega 2.122 associações dos camponeses de todo o país, Luís Muchanga afirmou que o favorecimento das multinacionais e do grande capital em detrimento dos interesses dos camponeses pode empurrar o país para uma situação como a do Brasil. 

"Podemos ter milhões de (pessoas) “sem terra”, como no Brasil, se a lei não for seguida nas grandes concessões atribuídas às multinacionais. Os camponeses são expropriados e colocados longe das suas terras", afirmou Luís Muchanga. 

O secretário -executivo da UNAC contestou o argumento do Governo de que as grandes concessões se justificam no país, porque há enormes extensões de terra sem ser aproveitada, defendendo que as terras férteis não têm sido cultivadas pelos camponeses devido à falta de apoios. 

"É um argumento problemático o discurso de que apenas cinco porcento dos 36 milhões de hectares que o país tem são aproveitados. A falta de aproveitamento pode ter a ver com o facto de os camponeses não terem incentivos, crédito bancário e assistência técnica", assinalou Luís Muchanga. 

O secretário -executivo da UNAC criticou ainda a prioridade que as autoridades moçambicanas estão a atribuir à produção de bio combustíveis, sem ter havido um mapeamento de terras marginais onde se podem implementar projectos nesse sector, considerando que a situação pode agravar a insegurança alimentar.

"Não houve um mapeamento prévio onde se pudessem identificar com precisão as terras marginais aptas a receber projectos nos bio combustíveis nem se estudou o mercado. Há camponeses que não produziram alimentos e produziram a jatropha e estão sem ercado para colocar essa produção", disse Luís Muchanga.