sábado, 10 de setembro de 2011

Telegrama secreto americano revela convicções de ex-ministro de Guebuza “Guebuza é corrupto e mafioso”

A semana passada, o ‘Wikileaks’ divulgou um largo número de telegramas diplomáticos oriundos de diversas embaixadas americanas. Constam dezenas de telegramas relacionados com a situação política, económica, militar e de segurança do nosso país.

Num telegrama “Confidencial”, expedido para o Departamento de Estado em Washington a 28 de Maio de 2009, o então Encarregado de Negócios americano em Maputo, Todd Chapman, cita Leonardo Simão, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros durante a presidência de Joaquim Chissano, a dizer ser sua “convicção que o Presidente Guebuza está directamente envolvido em actividades corruptas e dirige o Partido como a máfia”.

Simão manifestava a sua opinião durante uma conversa privada com aquele diplomata americano.
De acordo com esse telegrama, o Encarregado de Negócios americano disse ter sido informado por Simão de que este “e Chissano estavam à testa de um grupo de investidores que desejava estabelecer uma transportadora aérea privada para fazer concorrência à transportadora estatal”. Acrescenta o telegrama: Simão disse “que um dos filhos de Guebuza apareceu no escritório dele a manifestar preocupação e que queriam estar envolvidos. Simão lamentou-se por todos os cantos da cidade, a pontos do Encarregado de Negócios ter ouvido do Ministro na Presidência, António Sumbana, de que Simão e os seus colaboradores levavam a cabo uma campanha de difamação contra o Presidente”.

No telegrama, enviado com cópia para a CIA e a sua congénere militar (DIA), Todd Chapman afirma que embora certas pessoas acreditem que a “concentração de benefícios” nas mãos do círculo de amigos de Guebuza poderá vir a causar divisões no partido, “Simão argumenta que a Frelimo continuará a ser unida pois mesmo aqueles que se sentem preocupados com o ritmo vagaroso das reformas, reconhecem que devem ao partido os privilégios e os empregos que possuem a nível do governo”, frisando que “não há outra via para se obter emprego ou progredir em termos económicos”.

Camal confirma ligações do regime ao narcotráfico

O telegrama diplomático a que temos vindo a fazer referência cita ainda um encontro mantido entre Chapman e o antigo deputado pela bancada do Partido Frelimo e empresário, Ahmad Camal, em que este falou da “necessidade urgente de reformas” no seio do Partido Frelimo.
Camal disse ao diplomata americano que “altos dirigentes da Frelimo – incluindo ministros no desempenho de funções – possuem fortes laços com os narcotraficantes e indivíduos envolvidos na lavagem de dinheiro”.

De acordo com Camal e citamos o telegrama de Chapman, “o Governo de Moçambique manipulou as estatísticas de importação como forma de apoio às operações de lavagem de dinheiro, tendo descrito o director da Alfandegas como o ‘Rei da Corrupção’”.

O director das Alfândegas de Moçambique é Domingos Tivane. A esposa chegou a constituir uma empresa com a família de Mohamed Bachir Sulemane, do grupo MBS. O facto foi confirmado pelo DG do MBS, filho do magnata moçambicano, em carta que dirigiu ao Canal de Moçambique. Nela ele frisou que a referida sociedade, ‘Moçambique Construções, Lda’, foi extinta dias depois de ter sido constituída.

Todd Chapman disse ser “interessante” o facto de Camal ter “descrito a forma de corrupção de Guebuza como sendo ‘mais benigna’, do género da que, na realidade, não prejudicava os pobres”.

Camal disse ao Encarregado de Negócios norte-americano que “o Presidente e os seus compinchas não se apoderavam de fundos do Estado nem recebiam luvas. Em vez disso, os agentes económicos de Guebuza asseguram que o Presidente possa dispor de um quinhão minoritário em algumas das mais importantes empresas moçambicanas, incluindo a Vodacom”.

Acrescenta Chapman: “A família Guebuza é largamente tida como sendo uma accionista principal da Insitec, uma empresa moçambicana com vastos interesses em Moçambique e na África Austral”. O PCA da Insitec é Celso Correia que entre outras funções é também PCA do BCI.

E os cinco passaportes de Bachir?

Sobre os alegados cinco passaportes que a administração americana disse que o cidadão moçambicano “Momad Bachir Sulemane” possui com nomes diferentes, ou mais propriamente grafia diferente, uma fonte da Procuradoria Geral da República disse ao Canalmoz/Canal de Moçambique que há ainda um processo de investigação a correr separadamente, que inclui investigação na Direcção Nacional de Migração, a entidade emissora dos passaportes.

A fonte da PGR não quer ser identificada publicamente mas está plenamente identificada pelo Canalmoz/Canal de Moçambique. “Existe um processo separado que foi o primeiro a ser instaurado e está neste momento a decorrer, por isso é que o assunto não foi mencionado neste comunicado. Neste momento não posso precisar em que fase está, mas o processo existe”, disse a fonte da Procuradoria ao Canal de Moçambique, na terça-feira, 06 de Setembro de 2011.

A fonte adiantou-nos que há já funcionários da Migração identificados e relacionados com o assunto, o que indicia fortemente que algo se passou envolvendo o magnata moçambicano que os americanos continuam a classificar como “barão da droga” e a PGR moçambicana diz agora nada ter encontrado em Moçambique que consubstancie isso.

Reacção de Ahmad Camal

Na última terça-feira, por telefone, ouvimos Ahmad Camal, que se encontra a residir em Tete. Informámo-lo do que vem expresso num telegrama de Todd Chapman revelado pelo Wikileakks e pedimos-lhe que comentasse: “Eu não me lembro de ter dito isso ao Todd Chapman. Contudo, a minha opinião é que há falta de vontade política para combater o narcotráfico”.

Fonte: ( Canal de Moçambique)