segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Haiti: violência sexual contra mulheres está a aumentar

As mulheres e raparigas que vivem em acampamentos improvisados no Haiti enfrentam um elevado risco de virem a ser vítimas de abuso e violência sexual, declarou a Amnistia Internacional (AI) num relatório publicado no dia 6 de Janeiro.

Um ano após o terramoto que matou 230 mil pessoas e deixou 300 mil feridas, mais de um milhão de pessoas vive ainda em condições deploráveis, em cidades de tendas, na capital Port-au-Prince e no sul do Haiti, onde as mulheres estão em sério risco de serem vítimas de violência sexual. Os responsáveis por tais ataques são predominantemente homens armados que vagueiam pelos campos depois de escurecer.

De acordo com a informação citada no relatório da Amnistia Internacional Aftershocks: Women speak out against sexual violence in Haiti's camps, foram denunciados mais de 250 casos de violação em vários acampamentos nos primeiros 150 dias após o terramoto de Janeiro.

Um ano depois, ao escritório de um grupo local de apoio a mulheres continuam a chegar sobreviventes de violações quase todos os dias.

“Mulheres que já lutam para ultrapassar a perda dos seus entes queridos, das suas casas e dos seus meios de subsistência no terramoto, enfrentam agora o trauma adicional de ter que viver sob a ameaça constante de violência sexual”, declarou Gerardo Ducos, investigador da Amnistia Internacional para o Haiti.

“Para que a violência sexual não prevaleça, o governo que se segue deve assegurar que a protecção das mulheres e raparigas nos acampamentos é uma prioridade. Até agora este factor tem sido ignorado na resposta à larga crise humanitária”, acrescenta Ducos.

A violência sexual já existia no Haiti antes de Janeiro de 2010, mas tem sido exacerbada devido às condições deixadas pelo terramoto. A assistência limitada que as autoridades providenciavam anteriormente tem vindo a diminuir, devido à destruição de esquadras da polícia e tribunais, dificultando a denúncia de casos de violência sexual.

Mais de 50 sobreviventes de violência sexual partilharam as suas experiências com a Amnistia Internacional para o estudo.

Uma rapariga de 14 anos, Machou, vive num acampamento improvisado para pessoas deslocadas, em Carrefour Feuilles, a sudoeste de Port-au-Prince. Machou foi violada em Março, ao ir à casa de banho.

“Um rapaz veio atrás de mim e abriu a porta. Tapou a minha boca com a mão e fez o que queria… Bateu-me. Deu-me um murro. Eu não fui falar com a polícia porque não conheço o rapaz, logo não iria ajudar. Sinto-me sempre triste… Tenho medo que aconteça outra vez”, relatou Machou à Amnistia Internacional.

Uma mulher, Suzie, contou como estava a viver num abrigo improvisado com os seus dois filhos e uma amiga, quando foram atacadas por volta da 1h, no dia 8 de Maio. Tanto Suzie como a sua amiga foram vendadas e violadas à frente das crianças por um grupo de homens que invadiu o seu abrigo.

“Depois de eles saírem eu não fiz nada. Não tive reacção… As mulheres que são vítimas de violação devem ir ao hospital mas eu não fui porque não tinha dinheiro nenhum… Eu não sei onde existe alguma clínica que ofereça tratamento a vítimas de violência”, disse Suzie.

Suzie perdeu os seus pais, irmãos e marido no terramoto de Janeiro. A sua casa também foi destruída.

O relatório da Amnistia Internacional destaca como a falta de segurança e policiamento dentro dos acampamentos e à sua volta foi um factor chave para o aumento dos ataques ao longo do ano passado.

A resposta dada pelos agentes da polícia às sobreviventes de violação é descrita como sendo inadequada. Muitas vítimas de violação declararam como, quando procuraram ajuda da polícia, lhes disseram que os agentes não podiam fazer nada.

“Desde o terramoto tem havido um colapso na lei do Haiti, já de si frágil, e no seu sistema judicial, com mulheres a viver em acampamentos inseguros e demasiado populados”, afirmou Gerardo Ducos.

“Não há segurança para as mulheres e raparigas nos acampamentos. Elas sentem-se abandonadas e vulneráveis à violência. Grupos armados atacam à sua vontade; sentem-se seguros sabendo que ainda há poucas hipóteses de virem a ser responsabilizados pelos seus actos”, acrescenta o investigador da AI para o Haiti.

A Amnistia Internacional apela ao novo governo para que tome medidas urgentes de forma a acabar com a violência contra as mulheres, como parte de um plano mais amplo para abordar o esforço humanitário. O relatório considera ainda que as mulheres que se encontram nos acampamentos devem ser totalmente integradas no desenvolvimento de qualquer plano desse tipo.

Acções imediatas incluem melhorar a segurança nos acampamentos e assegurar que as forças da polícia estão aptas para responder de modo efectivo e que todos os responsáveis são devidamente acusados.

Comunicado de imprensa - Amnistia Internacional