quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A ÁFRICA EM BUSCA DE SINAIS FORTES DOS ESTADOS UNIDOS

Onze dias na África, a partir ontem dia 4 de Agosto, sete países visitados, tão diferentes quanto a Nigéria (140 milhões de habitantes) e o Cabo Verde (420 mil habitantes): a viagem da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, pelo continente negro pretende ser a demonstração das ambições africanas dos Estados Unidos. O que a África esperava de Barack Obama - uma política equilibrada, cuidadosa e generosa - e que o primeiro presidente afro-americano ainda não posicionou de maneira clara, será apresentado por Hillary Clinton, sua ex-rival na corrida pela candidatura democrata. No decorrer de uma viagem que começa pelo Quênia, país do qual Obama supostamente é um "filho", na medida em que seu pai era um cidadão de lá, a secretária de Estado deverá convencer a África que esse continente é agora uma prioridade para os Estados Unidos.

No início de julho, Obama dedicou pouco mais de 24 horas para uma visita-relâmpago a Gana. O país faz as vezes de modelo democrático, usufrui de um forte valor simbólico para a comunidade negra americana, mas não conta entre os países-chave ao sul do Saara. Não foi breve demais? Johnnie Carson, secretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos, acha que não. "A viagem da secretária de Estado acontece somente três semanas após a bem-sucedida viagem do presidente Obama a Acra", ele afirma. Lá, o presidente delineou o projeto de uma relação com a África.

Para a aplicação, falta tempo. "Barack Obama foi monopolizado pela crise financeira e outras questões internacionais", suaviza Thomas Cargill, pesquisador no centro de estudos Chatham House, em Londres.
Hillary conheceu a África quando Bill, seu marido, era presidente: o fracasso na Somália em 1993; a recusa dos EUA em admitir a existência do genocídio em Ruanda no ano seguinte para não se envolver, e depois o arrependimento, e finalmente a inclinação africana de Clinton. Pode-se dizer que a secretária de Estado quer colocar sua marca na política africana dos Estados Unidos.

Em 1997, a primeira-dama foi ao continente em uma espécie de visita de Estado, a seis países, entre os quais o Zimbábue e a Eritreia. Desde então, o país de Robert Mugabe flerta com o abismo, e não está no programa. Quanto à Eritreia, seu dirigente, Issayas Afeworki, não é mais um dos pilares da "nova geração de líderes africanos" promovida pela administração Clinton, e é um país em ruptura, envolvido na crise somali, e para o qual Washington eleva o tom. Nenhum dos países dos chefes de Estado "amigos" da era Clinton será visitado; nem a Etiópia, Ruanda ou Uganda.

De volta à África, Hillary Clinton se aterá a mostrar a ruptura com a administração Bush, para a qual predominavam as necessidades relativas a segurança e petróleo. Após as rejeições sofridas pelos Estados Unidos, que não conseguiram instalar no continente seu comando militar para a África, o Africom, essa viagem também tem ares de reconciliação.
A administração democrata promete dar suporte à agricultura do continente. Uma declaração importante deverá ser feita durante a viagem, da qual participará Tom Vilsack, o secretário da Agricultura. Ainda que os democratas afirmem querer manter a política de apoio das campanhas de distribuição de antirretrovirais - cavalo de batalha de Bush (2 milhões de beneficiários na África) - excelentes, como admite Hillary Clinton, para a popularidade dos Estados Unidos, a missão da nova administração consistirá também em renovar relações afrouxadas.

Como com a África do Sul, locomotiva econômica e diplomática do continente e terceira etapa da viagem. As divergências entre o ex-presidente, Thabo Mbeki, e George Bush, eram profundas. Hillary Clinton chega como amiga em Johanesburgo graças aos laços criados por seu marido, em especial com o ícone Nelson Mandela. Em seguida ela vai para Angola, que fornece aos EUA 7% de seu petróleo (51% de aumento no ano 2008) ao mesmo tempo em que constrói seu papel de potência regional e preside a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). "Apesar da vontade de ruptura demonstrada, os democratas também são parte de uma continuidade com os republicanos, a começar pela manutenção dos interesses pelos minérios e petróleo", analisa François Grignon, diretor do programa para a África no International Crisis Group (ICG).

Para sua primeira etapa, a secretária de Estado fará uma parada no Quênia, onde participará da oitava reunião da Agoa (African Growth Opportunity Act), o sistema de acordos destinado a abrir o mercado americano às exportações africanas. A Agoa, estabelecida em 2000 pela administração Clinton, deveria favorecer setores ameaçados e criadores de emprego, como o têxtil. O último relatório do órgão indica que na realidade, os produtos petroleiros constituem 92,3% das importações nos Estados Unidos "facilitadas" pela Agoa.

Na delegação estará Ron Kirk, o representante para o comércio americano, que deseja "uma parceria forte com os países da África no contexto das trocas comerciais" na medida em que "o crescimento econômico nos países em desenvolvimento (...) é uma vantagem para a economia americana por ampliar os mercados".

Outra prioridade, as crises e sua prevenção. A delegação americana fará uma parada na Nigéria, grande fornecedora de petróleo para os Estados Unidos (8% de suas importações), mas também o país mais populoso da África, no qual as companhias americanas investiram mais de US$ 15 bilhões (cerca de R$ 27 bilhões).

Mas a etapa nigeriana, obtida por Carson, também é motivada pelas preocupações suscitadas pelo estado do país, onde Umaru Yar'Ardua, presidente de saúde frágil, enfrenta crises violentas, dando a entender que ele não terminará seu mandato. "Em caso de sucessão, há muitas preocupações, inclusive a de que os militares voltem a intervir. Seria um retrocesso terrível, e ninguém em Washington quer ver a Nigéria ameaçada dessa forma", analisa uma fonte confiável.

Portanto, os objetivos dessa viagem são muitos e alguns humanitários, como na República Democrática do Congo (RDC) onde a secretária de Estado não se contentará com uma visita a Kinshasa, mas também irá a Goma, no leste do país. Em todos os lugares Hillary Clinton propõe encontrar membros da sociedade civil. Isso não define, entretanto, uma política americana clara em relação à África, uma vez que já apareceram cisões entre os partidários de Obama e os da secretária de Estado, herdados da década Clinton. Especialmente no Sudão.

O enviado especial americano, Scott Gration, defendeu diante do Congresso a possibilidade de suspender as sanções americanas para abrir o diálogo com o país de Omar al-Bashir, o presidente processado pela Corte Penal Internacional (CPI) por crimes contra a humanidade em Darfur. Hillary Clinton logo se opôs. O Sudão, dirigido por um "regime corrupto e muito cruel", não faz parte das etapas da viagem.
http://www.24horasnews.com.br/index.php?mat=300427